sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

As brumas do convento

A comunicação do olhar falece
tudo chispa na conexão do trem-bala
não há mais o cheeck to cheeck
nem o som do tête-à-tête

Outrossim
uma nudez profunda amordaçando
as brumas do convento
uma solidão aidética contaminando
as cores do confete

Se perguntarmos ao fundo
do olho do moço
o que fez das 2 às 6
nos dirá: Celular

No mais é uma Bunda colosso
mergulhando seu rosto
no fundo do mar
         sem olhar...

PS: Além de uma esperança persistente de um Presidente,
elegamos também uma Princesa Virtual, um Princípe Shopping, um
Rei Celular e uma Rainha Bunda

Fernando del Core

Carta poema sem guaraná



Paris, 8.8.2008

Carta poema sem guaraná

Te amei demais, Lola
Hoje já nem tanto, Leonor... será?
Hoje já não me encanto tanto com o encanto do teu canto
Hoje crepuscularei nas margens do Sena
Lá pelas madrugadas me encharco de absinto com Toulouse e as luzes do Moulin
Rouge...

Lola Leonor...
Creio que me fiz um desastrado Dom Quixote caindo do Rocinante
empurrado pelas mãos de Cervantes.
Nem mesmo tuas mãos consegui segurar
Nem mesmo futucar a farpa do teu polegar... lembras?
Nem mesmo uma colher de chá de prata do teu samovar
Nem mesmo um farfalhar de alça do teu peignoir
Nem mesmo um reflexolhar do espelho do teu boudoir
Nem mesmo um pingo de leite morno do fogo do teu forno
Nem mesmo um frisson frappé do teu prêt-à-porter
Nem mesmo um ta-ti-bi-ta-te do teu bri-ca-bra-que

Fui apenas...
um pintor sem cor
um ator sem palco
um palhaço sem talco
um Chaplin sem graça
um lago sem garça
um Bronson sem Charles
um Woody sem Allen
um Glabe sem Clarck
um tenor sem claque
um zippo sem plaque
um leite sem nata
um calendário sem nata
um Cavaradossi sem Tosca
um biriteiro sem birosca
um resfriado sem tosse
um ejaculador precoce
um poeta sem Dante
um nada exuberante!

Um cego abridor de lata. Sem Guaraná...

Mas quando a ressaca deixar... há...
Deixarei Toulouse e as luzes do Moulin Rouge, correndo como touro à procura do Sol de
Madrid, pra pintar teu retrato em pedaços com os cruéis pincéis de Picasso.

Enquanto... o tempo... passa...

Pra voltar, rever e dormir com você, Mury...
na RJ-116 Km 73, versículo? talvez...
Coberto pelo teu amor, Lola Leonor. Amor embrulhado em papel de amor franzino,
que não resistiu à chuva, ao frio e aos calafrios, se rasgando em convulsivos arrepios
como as torres nova-iorquinas.

Que pena...
Minha pele-osso só queria um cobertorzinho simples, sincero, sedutor.
Sem culpas, sem farpas, sem dor...
Daqueles que aquecem o APAIXONADO homem das neves.

Parafraseando teu abominável escritor tricolor, Nelson Rodrigues:
Perdoa-me por não me Amares

Pensas que não percebi que só consegui te fazer sorrir
com minha barba lambuzada de cevada?
Provavelmente fiz tudo – tudo – tudo – tudo – tudo errado!!!
Fui um péssimo amante
mas fui sobre tudo o HOMEM que mais te AMOU.
Por isso, aceitei ser aquele garçom educado, de terno e gravada, que cata no prato
a prata de lata dos teus 10%. Ou até mesmo aquela Tsunami epilética
que espuma sua bruma no fundo do mar
sem Guaraná...
Hoje, no entanto, Lola
a corrida está no filme
o filme está no fim
Corra, Lola! Corra!

Enquanto... o tempo... passa...
Quem sabe se a felicidade, apesar da idade, nos marque um encontro no vão central
de uma ponte, no ponto mais culminante?!
Mas como isso é delirar...
Prefiro me relembrar daquele domingo-tarde-saudade, quando revi Bagdad Café,
só para ouvir tua algazarra nas asas das cigarras, tocando as guitarras
nas praças alegres de Madrid!
Mas hoje, é outro domingo-tarde, Lola...
é outra realidade, Leonor...
é o meu domingo-tarde: coragem!!!
Tanto é verdade, que já besuntei o poste onde um dia a febre do amor me fervia
e, em pleno meio-dia, escrevi: Ariano! Ama! Leonor!

E quanto ao piquenique, já me ordenei retirar de baixo do teu jatobá aquela toalha
vermelha deitada na grama, a cesta de vime com 1.000 guloseimas e a fartura da tua
risada convidando o lilás, provocando o crepúsculo...

Por quê?
Porque entre o Sol e o chapéu
O céu e Eiffel
Paris e Monet
Eu e Você...
Meu amor deverá morrer!
Mas...
Sempre que eu for pegar água na fonte...
Me molharei de Você...
Mesmo assim...

Adieu!!!
Adieu???

Fernando del Core